23 de março de 2014

"Saudades da zona sul" - Parte 3

Foram 4 anos e meio em Santo Amaro, mas não seria uma partida definitiva, o bairro continuaria em nossas vidas ainda por muito, muito tempo.

Mudamos no dia 30 de Julho de 1988
Meu Deus, que aventura! Sair de uma casa com cinco cômodos, dois quintais e uma garagem, energia elétrica, água encanada, direto para dois cômodos rústicos, sem chuveiro, descarga, luz, água, pia, televisão... Isso mesmo, T-E-L-E-V-I-S-Ã-O! A televisão era eu à noite imitando os personagens do Chaves para distrair. Um bico de luz foi emprestado da vizinha até ligarem a nossa e a água também era emprestada. 

A água do banho era esquentada numa lata dessas de tinta, no quintal a céu aberto meu pai fazia uma fogueirinha e colocava a lata em cima, tudo para economizar gás e o banho tinha cheiro de queimado. De tardinha, eu saía pelas ruas para pegar gravetos, era para o fogo da água do banho. Haviam poucas casas nas redondezas, de longe meu pai podia me ver em qualquer rua e assim eu ia me familiarizando com o Lago Azul, Parque Residencial dos Lagos (Cocaia). 

A linha 6081-10 foi desativada a cerca de dois anos...
Aquela vida rural era divertida pra mim, tudo era uma brincadeira, só o que me incomodava era a escola. Fabiana e eu fomos estudar no Grajaú, numa escola municipal, porque minha mãe achava o ensino melhor. Tinha que pegar ônibus e naquela época a condução era escassa e demorada. Eu não gostava da escola nem da minha sala, incluindo a professora, eu não tinha o livro de Ciências e Estudos Sociais e nas aulas tinha que me sentar com alguém, eu não tinha um tênis nem camisetas adequadas (branca ou com o emblema da escola) e eu era hostilizada pelas garotas metidas da minha sala, era cruel.

Saí de uma escola boa, organizada e de repente me senti tão perdida, não entendia nada, pela primeira vez eu estava sentindo na pele o bullying, anos depois aconteceria de novo. E eu quase perdi aquele ano, quase repeti a 2ª série.

Mas quem sofreu mesmo com a mudança foi o Puppy*, nosso cachorro. Na época ele tinha uns dois anos, era grande e forte feito um touro. Ele não tinha um cantinho adequado, ficava na terra e acabava doente. Era bravo com estranhos, mas com a gente era dócil, adorava brincar.

Puppy à direita com a Fabiana
Aos poucos a casa foi sendo construída, novos moradores foram chegando, o bairro foi se modificando. Amigos não tínhamos muitos, às vezes jogávamos bola na rua, pulávamos corda, mas tudo sem compromisso.

O 2º semestre de 1988 foi muito duro, foi uma mudança muito brusca de vida. No ano seguinte as coisas melhoraram, minha mãe comprou mochila, tênis e camisetas brancas, fiquei muito feliz porque eu ficaria igual a todo mundo na escola e as "piadas" ficariam de lado. Ainda no início do ano letivo, a Fabiana e eu mudamos de escola, era no bairro vizinho, Jardim Eliana e dava pra ir andando. As ruas não eram asfaltadas e a escola ainda estava sendo construída, estudávamos em uma pequena igreja católica, duas horas por dia apenas. Mas pra mim sujar o tênis novo de barro e estudar em uma igreja sentada num banco não era problema, eu não sofria porque me sentia em casa.

A igrejinha transformada em escola no ano de 1989
A escola nova era muito diferente e eu logo me identifiquei, os alunos eram simples, alguns usavam chinelos e eu até me sentia mal em ter mochila nova e meus colegas não. A escola ficou pronta em 1990 e eu me orgulho em ter sido uma das primeiras alunas da Escola Municipal "Plínio Salgado". Tudo novo, alguns alunos eram da igrejinha, eu estava na 4ª série. Estudei no "Plínio" da 3ª a 7ª série, só não fiz a 8ª  série lá porque foi no turno da noite, das 19:00 às 23:00, e minha mãe achava perigoso.

Foi uma época gostosa, era uma escola leve, tinha festinhas com muita música e bolo, feira de ciências no fim do ano, desfile de 7 de Setembro, foram cinco anos de aprendizado e prazer com os estudos e colegas. Na 6ª série, todos tinham um apelido, o meu era "Banana Joe". Cultivei meu apelido por quatro anos, junto com a mochila comprada por minha mãe em 1989.

A evolução, ao fundo o Cantinho do Céu ainda não existia
Em casa as coisas caminhavam devagar. A obra era constante, porém lenta. Eu fui crescendo no meio da construção, fazia das dificuldades, brincadeiras. O pau infincado no chão para segurar a corda do varal logo virou um balanço que eu fiz com a corda velha do poço e o poço era perigoso, mas eu podia descer o balde girando a manivela, logo minha mãe comprou uma bomba e ela se encarregava de puxar a água.

A ausência dos meus pais já era comum, a Fabiana e eu aprendemos bem a nos virar sozinhas. Minha mãe deixava comida pronta, às vezes fazíamos arroz e diariamente tinha a louça para lavar e a casa para organizar. Eu ajudava passando roupa, aprendi aos nove anos e gosto de fazer até hoje.

E morando no meio do mato ir para Santo Amaro era comum. O transporte melhorou muito com o passar dos anos, só o que não mudou foi o tempo para chegar em Santo Amaro, aproximadamente uma hora. Apesar da distância era a melhor maneira de se ter as coisas, afinal lá tem tudo: Pronto Socorro, clínicas, lojas, bancos, correio. A variedade é o ponto forte de Santo Amaro.


Crédito da foto conforme endereço acima
*Puppy, nosso querido amigo nos deixou no dia 9 de Julho de 1994, uns dias antes do Brasil conquistar o tetra na Copa do Mundo.