23 de março de 2014

"Saudades da zona sul" - Parte 2

Tudo caminhava bem até o início de 1988 quando uma coisa aconteceu e mudou a vida de toda a família. Dona Dina faleceu, foi um ataque fulminante durante o jantar. Ela estava à mesa com a Creusa, sua empregada, e eu estava no quintal e pela tela verde da porta eu pude ver sua cabeça tombada para trás, a boca cheia de comida. A Creusa gritava e eu fui chamar minha mãe. Foi uma correria, meu pai ficou nervoso e não conseguiu tirar a Brasília da garagem, o vizinho no alto da rua foi que levou Dona Dina ao hospital. Logo vieram os filhos, a filha Vulcana que costumava pegá-la aos sábados, as noras e a notícia que ela já havia chegado morta ao hospital.

O jardim ficou vazio sem Dona Dina...
Minha irmã e eu não fomos ao enterro, fomos na missa de 7º dia. A família esvaziou a casa, levou os móveis, as plantas e o pouco que restou acabou morrendo. Aquele lugar perdeu a alegria, a vida. A casa permaneceu fechada, quase ninguém aparecia por lá. Naquele ano, minha mãe começou a trabalhar de segunda a sábado, minha irmã foi para o ginásio e eu fiquei meio jogada às traças.

Cada dia eu ia pra escola com uma pessoa diferente, até que um belo dia eu fui esquecida na porta da escola. Foi então que minha mãe começou a pagar para uma moça me levar e buscar, era legal! Sete crianças fazendo bagunça, mas pelo menos tinha alguém responsável por mim durante o caminho.

Minha mãe trabalhava próximo, na casa de uma família japonesa. Eu chegava da escola às 15:30, na hora do Show Maravilham e a Mara me fazia companhia até às 16:00, hora que minha mãe chegava. Às vezes ela me trazia uns agrados, no trabalho dela tinha um garoto um pouco mais velho que eu e ele tinha muitos brinquedos, ele mandava algumas coisas.

Eu era fã da Mara, não da Xuxa!
Com meus pais trabalhando e a Fabiana distraída com as novidades da puberdade, eu fui me tornando individualista, me acostumando com a solidão, fui montando um mundo só meu.

Numa noite, um dos filhos de Dona Dina foi lá em casa conversar com meu pai. Ele pediu para deixarmos a casa e nos deu dois meses para esvaziá-la. Me lembro que minha mãe não gostou nada da ideia. O tempo era curto e o sonho de sair do aluguel era enorme.

Um colega de serviço de meu pai comentou sobre uns terrenos às margens da Represa Billings e num sábado bem cedo fomos conhecer. A Fabiana não foi com a gente, ela estava numa excursão do catecismo. Me lembro do sol e de muito mato, tinha uma chácara com porcos e galinhas, árvores para todos os lados, a Avenida que dá acesso ao local, onde passa os ônibus, naquela época não era asfaltada, era tudo de terra. O resto eu não me lembro, foi tudo muito rápido, logo meu pai começou a adiantar a obra nos dois cômodos no meio do mato, iríamos mudar em breve. Só me recordo que eu não ligava, não me importava em mudar de escola, de casa, de bairro. Oito anos é muito pouco para perceber a imensidão das coisas.

Extremo da zona sul lá vamos nós!!!
A mudança foi confusa, não tinha nada empacotado, minha mãe estava aborrecida com a situação e minha irmã e eu éramos dois pontinhos no meio dessa tremenda "confusão". Já dentro da Brasília, com o Pitico no colo (a vizinha Ivone havia nos dado dois ursos de pelúcia, um rosa e um azul, esse era o meu), vi Dona Bela, outra vizinha querida, chorando com a nossa partida. Dona Bela faleceu uns anos depois...