2 de fevereiro de 2014

"Saudades da zona sul" - parte 1

Entre 2008 e 2009, passei uma temporada em Diadema - SP. Eu sentia muita falta da capital, eu tenho laços fortes na zona sul de São Paulo e para diminuir a saudade eu me dediquei por algum tempo a escrever minha história. Guardei os rascunhos até um dia resolver lê-los e achei tão bacana, eu tinha conseguido passar para o papel o início de uma vida que também envolve a história da minha família e isso é muito valioso. 
Em 2011, eu passei tudo a limpo e consertei alguns trechos para melhor compreensão. É o relato do início da infância até o término do colegial, em 1997. Eu não consegui dar continuidade e também não forcei, acho que esse tipo de coisa tem que surgir quando a inspiração resolve aparecer...

Escrito originalmente entre 21 de Setembro a 16 de Outubro de 2009 - Passado a limpo em 06 de Junho de 2011

"Saudades da zona sul"

Embora eu tenha nascido em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, foi na capital que eu criei raízes.

Foram apenas 4 anos na cidade Natal, de 1979 a 1984, eu tinha 4 aninhos quando minha família migrou para a capital, na época tida como a Terra das Oportunidades, apesar que o ABC também não ficava atrás com suas grandes montadoras automobilísticas, mas a sorte chamou meu pai mesmo foi para a zona sul e nós fomos parar no bairro de Santo Amaro.

A casa que eu nasci... Minha avó foi fotografa pelo Google Mapas!
Antes disso, meu pai ficou um bom tempo sem trabalho. Me lembro que ele fazia uns bicos, na verdade ele fazia de tudo um pouco (e faz até hoje): marcenaria, consertos em aparelhos eletrônicos e até panificação. Ainda consigo me lembrar dos pães que ele confeccionava na pia da cozinha, eram trançados e quando ficavam prontos as tranças ficavam bem douradas.

Eu era muito pequena, algumas imagens já se apagaram da minha cabeça, outras ainda lembro meio embaçadas, distantes: o galo da minha avó que corria atrás de todo mundo (inclusive de mim), da inquilina da casa dos fundos que chamava-se Marlene que vivia com bobs nos cabelos, do dia que minha madrinha foi em casa buscar meu berço, da escolinha que a Fabiana, minha irmã, estudou a pré-escola etc. Talvez a lembrança maior seja das muitas crises de bronquite. Uma vez, já tarde da noite, ao voltar do hospital, um camburão da polícia nos levou pra casa, não tinha mais ônibus circulando...

O emprego do meu pai e minha bronquite foram fatores decisivos para deixarmos o ABC. Nos mudamos no início de 1984, a casa em uma das ruas estreitas da Alameda Santo Amaro era boa (Rua Carolina Cardoso de Oliveira), com cômodos grandes. A dona da casa morava no mesmo quintal, a chamávamos de Dona Dina. Era uma senhora lúcida, esperta, cuidava bem do jardim que era muito bonito. Algumas vezes fiquei em sua casa, ela me dava biscoitos doces e revistas Manchete pra ver, só ver porque eu ainda não sabia ler.

Dona Dina, a proprietária da casa de Santo Amaro
Naquela época Santo Amaro era tranquila, diferente do que conhecemos hoje. Na Alameda Santo Amaro tinha mercadinho, padaria, papelaria, açougue, farmácia e a pediatria do Convênio. Ao menor sinal de uma crise de falta de ar, minha mãe já me levava. Todos os médicos e enfermeiras nos conheciam, também eu vivia lá. Me lembro da Dona Maria da enfermaria, quantas inalações aquela mulher preparou pra mim, meu Deus!?!

A bronquite foi dando uma trégua ao longo dos anos. Em 1986, eu fui matriculada na Escola Municipal "Carlos de Andrade Rizzini", na época, era a melhor escola da região, e eu estava muito feliz em ir pra escola. Eu entrei na escola mais tarde que minha irmã e aprendi a ler e escrever mais rápido que ela, acho que os anos em casa desenhando me ajudaram a amadurecer com o lápis e o papel. Na escola eu podia correr, brincar e me divertir sem ter que ouvir minha mãe gritando: "Olha a bronquite! Vai ficar cansada!"

Eu e minha cartilha Caminho Suave
Era muito bom morar em Santo Amaro. Já era um grande centro comercial, apenas um pouco diferente: as calçadas sem as barracas de marreteiros (já faz alguns anos que proibiram as barracas), a Avenida Adolfo Pinheiro sem tantos ônibus, o povão reduzido mais da metade. Bem, a igreja do Largo Treze ainda está lá, a Loja Pernambucanas, a Ótica Menezes e as casas do Norte. E a modernidade engoliu o cinema ao lado da catequese, o comércio do início da Alameda, o Shopping Center Sul e o Mercado Real, que hoje deram lugar ao Shopping Boa Vista e o Mercado Sonda.

Foto tirada na praça Floriano Peixoto
Veio o Terminal Santo Amaro, os ônibus, a poluição, o povão e o Paraguai e os produtos made in China viraram moda. Veio a Unisa, as lojas, os prédios e o metrô está chegando aos poucos...