28 de novembro de 2013

"Eu já tive medo de crianças!!!"

Escrito em 28 de Novembro de 2013 (fresquinho!)

Eu devia ter entre 2 e 3 anos, mas me lembro desse episódio sombrio da minha infância. Um dia saí com meu pai, fomos até a casa de um vizinho, era um casal com um filho menor que eu, devia ter algo em torno de 1 ano.

Pare de morder!!!
Meu pai sempre consertou aparelhos de TV e rádio nas horas livres e aquela visita deveria ser para verificar alguma coisa quebrada, enfim desse detalhe eu não me lembro, o que me recordo, infelizmente é daquela criança pequena em cima de mim me mordendo, babando, se divertindo na pele branquinha da menina de Maria-Chiquinha. Os dentes dele eram afiados e ele me mordeu várias vezes próximo ao pescoço e no braço. 

Havia três adultos presentes: meu pai (que puxa!), o pai do menino assassino (filho da puta) e a mãe do roedor (puta vagabunda desgraçada). Ninguém fez nada para impedir, eu fui mordida várias vezes e ninguém se deu conta que eu estava chorando porque o menino devorador de garotinhas estava me machucando...


Isso dói demais!!!
Apesar desse trauma, durante muito tempo a memória mais visível foi outra, ocorrida no mesmo dia, assim que chegamos em casa. Minha mãe ao se deparar com as mordidas coloridas de vermelho na minha pele tão branca e com o meu choro constante, teve um ataque. Ela gritou com meu pai (não me lembro o que ela disse) e correu para dentro de casa, ao retornar, ali mesmo no quintal, ela fez o gesto mais brutal que já me fizeram fisicamente em meus 34 anos de vida. Munida de um frasco de álcool ela me molhou com o líquido ardido com o intuito de desinfectar qualquer bactéria que talvez pudesse ter entrado em minha pele por meio das feridas. Aquilo doeu muito, eu era muito pequena, mas me lembro que eu chorei muito porque ardeu demais.

Álcool não!!!
Essas mordidas com álcool ficaram tatuadas em minha memória e sempre que eu ouvia o nome Felipe, eu me arrepiava toda. Esse era o nome do menino que achou que eu era um mordedor de plástico.

Em 2007, quando meu sobrinho nasceu, eu quase tive um troço ao saber qual seria o nome dele. Ahan, Felipe! Que dureza!

Eu sou filha caçula, cresci distante de outras crianças, salvo algumas primas, primos e amiguinhos de rua (já morando em Santo Amaro, zona sul, capital, São Paulo).

Ano passado, quando finalmente definiram o setor da livraria que eu iria ficar, me dei conta que eu não só ia vender livros infantis, mas também teria contato com crianças, muitas crianças. Olhei para o barco e fiquei imaginando o que me esperava no fim de semana (muitas crianças vão até a livraria para brincar no barco, principalmente aos fins de semana).


Domingão, setor infantil bombando, crianças correndo, o barco transbordando de baixinhos de todas as idades, sobe escada, escorrega, corre, dá a volta, sobe escada de novo (quase fui atropelada por um pequeno no corredor concentrado apenas na direção da escada do escorregador). Ufa! Eles não cansam, não? Percebi desde cedo que se eu quisesse manter a serenidade ali, era só ficar longe daquele barco.

Até aí, tudo bem! Só que um dia eu fui solicitada, um pai me pediu para colocar novamente o DVD da televisão do barco, estava na tela inicial, era só dar play, certo? OK! Eu peguei o controle remoto, devagar subi os degraus do barco, quase nas pontas dos pés, em slow motion, eu não queria que as crianças me vissem ali em cima. Abri a porta da estante que dava acesso à TV, apertei o play no controle remoto e me dei conta que a tecnologia da TV e do aparelho de DVD não era lá essas coisas e aquele simples comando durou uma eternidade. De repente percebi que não estava sozinha, senti uma mãozinha apoiada no meu braço (meu Deus, uma criança tocou em mim!), quando me virei vi umas cinco crianças, deveriam ter entre 3 e 5 anos, todas agachadas e olhando atentas para a TV, eu também estava agachada pra ficar na altura do aparelho. Foi quando a garotinha da mãozinha (aquela que tocou meu braço) perguntou: "tia, o que você está fazendo?". De uma maneira absurda eu respondi gaguejando: "es-estou co-colocando o D-DVD pra vocês!"

"Tia, o que você está fazendo?"
Meu Deus, eu estava apavorada, eu sentia o suor surgir nas minhas costas (quase molhou a camisa), até a testa ficou molhada de nervoso, uma mistura de medo e terror. Foi então que uma coisa mágica aconteceu: eu consegui responder sem gaguejar para a garotinha que aquilo demorava um pouquinho e olhei pra ela. Senti sua inocência, seus olhos curiosos em cima de mim (a mãozinha continuava apoiada em mim), senti uma coisa boa, era só uma menininha, indefesa, igual aquela que por volta de 1983 havia sido mordida estupidamente por não ter nenhum adulto com atitude para defendê-la naquele momento. Me dei conta que eu era ali, diante da TV, a heroína do barco, a tia que tinha a chave e o controle remoto, a pessoa que podia rodar o filme novamente, me senti poderosa!

Pronto! Fechei a porta, me levantei e desci os degraus ainda trêmula pelo nervoso inicial, eu ainda estava suada, esbaforida. Olhei em volta pra ver se alguém tinha presenciado a cena, vi que não. A essa altura as crianças estavam todas entrertidas olhando para a TV.

Só sei que depois daquele dia, eu não tive mais sudorese nem pavor das crianças, passei a respeitá-las, a ouví-las, a tratá-las com carinho e atenção. Muitas vezes me senti importante atendendo um baixinho, mostrando livros (a alegria deles ao abrir uma embalagem e descobrir os pop-ups) ou pegando a mãozinha para procurar o pai e a mãe do outro lado do setor. Fiz até uma amiguinha, a Nicole, que todas as sextas-feiras ia atrás de mim pra dar beijo e abraço (todos bem carinhosos).

Nicole e sua mamãe
Criança é vida, é amor, é uma folha em branco com vários lápis de cor ao lado prontos para colorir as histórias. Hoje trato uma criança do jeito que eu gostava de ser tratada: com atenção. E quando escuto alguém falar o nome Felipe, me lembro do meu sobrinho e não mais do menino mordida assassina. 

E nesse mundo de gente estranha, Deus abençoe as crianças.